"Ninguém é tão ignorante que não tenha algo a ensinar. Ninguém é tão sábio que não tenha algo a aprender." Pascal

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Out 10

Como transformar um pacato cidadão num serial killer?

 

Hoje fiquei em casa. O rebento mais novo está com febre e no fim de semana uma familiar, médica, diagnosticou-lhe uma otite dupla. Como há historial de complicações graves com otites no irmão anterior, achei por bem dar repouso à criança. Além disso é necessário ir ao médico, o que é sempre uma complicação...

 

Passo a manhã a ligar para as opções disponíveis:

Opção 1. Centro de Saúde - Preciso de uma consulta.. "Tem marcação?" Não.... "então, só para as agudas!" E pode marcar-se? "Tem de vir e esperar.." Já começo a imaginar a manhã inteira numa sala de espera cheia, com a criança aos berros...

 

Passamos à Opção 2. Pediatra - no telemóvel não atende.. No consultório, "só à tarde..." Mas há hipótese de ser visto hoje? "Sim, venha logo depois do almoço". Óptimo!

 

Faço quase 20 km, chego e tenho sala vazia. Espero 4 minutos e sou chamado. Observação de rotina (aproveita-se e faz-se a consulta dos nove meses). Confirmação do diagnóstico. Rapidez e eficiência!

 

Resolvido o caso, lá deixo os XX,XX euros e sigo. Ah! Pedi um atestado, para poder justificar a falta. A criança deve permanecer em casa por 3 dias. Alguém tem de ficar com ela e, desta vez, calha-me a mim.

 

Com o atestado na mão, e para tirar as teimas, ligo para o serviço: preciso de saber se este atestado serve para justificar a minha ausência... "Não! quer dizer.. que tipo de contrato tem?" Ainda penso, por momentos, que estou a ser promovido, mas logo regresso à terra.. "É a termo, não é? e desconta para a Segurança Social.. então esse atestado não serve!" E agora? "Tem de pedir um ao médico de família!"

 

Médica de Família... pois bem. Há mais de 5 anos que não vejo a senhora... Talvez seja altura de uma visita.

 

Com a criança, lá me dirijo ao Centro de Saúde. 40 minutos depois e 20 km feitos, chego. Boa tarde! Preciso de um atestado para justificar as minhas faltas. Tenho aqui este do Pediatra, mas parece que não dá... "Ai não? E por que é que não veio cá?" Porque não conseguia consulta e tinha de ficar à espera... "E quem é a sua médica?" A Dra XXXXXXX... "Ah.. mas ela já não dá cá consultas..." Realmente 5 anos é muito tempo... E fui mudado para outro médico? "Não! A sua médica continua a ser ela!" Mas se ela já não vem cá... "Pois não! Mas vai à extensão de Alcafache!  Tem de lá ir! Aqui não podemos fazer isso!" Mas tem a certeza que tem de ser assim? Eu devia era estar em casa com a criança, e não andar a fazer uma peregrinação a tarde toda... "E não tem ninguém que fique com a criança em casa?" pergunta-me a senhora... Não! Sabe, se tivesse, não precisava de ficar eu em casa com ela, está a perceber? A senhora insiste "Mas tem de lá ir! Aqui não podemos fazer-lhe isso!"

 

Não tenho passado lá, mas das poucas vezes que passei aquilo está sempre fechado. Insisto: Mas está lá alguém? Eu nunca a encontro... "Deixe cá ver... Aqui no sistema diz que sim... e até está com sorte!" Tento imaginar que sorte será... "Ela está lá hoje!" Tem a certeza? "Sim, aqui (no sistema) diz que ela está lá hoje das 14h às 20h.. E olhe que até há vagas, que eles em as ocuparam e já são 5 da tarde...".

 

Começo a ficar desconfiado, mas meto-me ao caminho e lá vou. Mais 20 km, aproveito e apanho os irmãos nas respectivas escolas e lá vai tudo para Alcafache! Ao aproximar-me, vejo dois carros. Humm, a senhora talvez tivesse razão... Estaciono e procuro uma porta aberta. Nada. Tudo fechado! Um dos carros dá sinal e prepara-se para abandonar o local. São 18:15. Imagino que seja a médica, a sair mais cedo. Abordo-a. A senhora abre o vidro.. "Procura o sr Justino?" (o sr Justino é o presidente da Junta, onde funciona a extensão de saúde) Não! Procuro a médica! "Ah.. a médica..!? olhe que elas (médica e auxiliar administrativa) já cá não vêm há algum tempo..." Numa tentativa, que suponho seja de me consolar, atira com esta, à laia de justificação  "parece que o sistema está avariado... e já sabe como é, sem sistema, elas não sabem trabalhar!"

 

E cá estou. Em casa. 60 km depois e uma tarde inteira a andar. A faltar ao trabalho. Com um atestado que não atesta coisa nenhuma, a não ser a minha estupidez por acreditar que alguma coisa funciona neste belo país! Miséria!

 

publicado por Ricardo Antunes às 18:39
tags:

Um pais disfuncional :(
Espero que "rebento mais novo" já esteja bom.
Ao menos isso.
Abraço
Joaquim Alexandre Rodrigues a 31 de Outubro de 2010 às 23:08

Por falta de tempo, acabei por não dar sequência à saga...
Só consegui o atestado depois de 4 idas ao Centro de Saúde de Mangualde!

Quanto ao rebento, felizmente está melhor, sim.
Ricardo Antunes a 1 de Novembro de 2010 às 19:09

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